9 de abr de 2010

O Mito da Marginalidade Permanece

atualizado em 10/08/2013

"A favela é uma exigência da estrutura social brasileira. Ela exige relações de dependência econômica que resultam na miséria permanente ou temporária que por sua vez dá origem a esse tipo de organização social, num conhecido círculo vicioso". José Artur Rios. O "Mito da Marginalidade" é uma obra da antropóloga norte-americana Janice Perlman que nos anos setenta fez uma análise aprofundada dos mitos sobre os moradores das localidades urbanas conhecidas como favelas. Os mitos permanecem ainda hoje, mais vivos do que nunca, embora empiricamente falsos, que servem somente para afastar cada vez mais os moradores de uma mesma cidade. O governador Sérgio Cabral em pronunciamento feito em 25 de outubro de 2007 preocupado com os altos índices de criminalidade, aconselhou o radical controle de natalidade tomando como exemplo a Rocinha, para ele "uma fábrica de marginais". Ele baseou suas críticas nas teorias de Stefen Lewitt e Stephen Hubner que pretenderam mostrar que a redução da violência nos Estados Unidos estaria diretamente ligada à legalização do aborto."Quanto menos filhos menor violência". Para ele as jovens mães da Rocinha fabricam um número considerável de bandidos e quase ou nenhum herói. E na sua argumentação afirma: "Fico muito aflito. Tudo tem a ver com a violência. Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas, na Tijuca, Copacabana é padrão sueco. Agora pega a Rocinha. É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produto marginal".


A retórica antifavela do governador continua através dos tempos e surge de forma ameaçadora contra os despossuídos. Em recente pronunciamento a respeito da enorme tragédia que tem assolado todo o estado, o "ilustre mandatário" culpou os mortos pela tragédia ocorrida. Para ele "tudo ocorreu de uma forma irresponsável, deveriam ter escolhido morar em outro lugar". O preconceito, o mito da marginalidade, o estigma que persegue os moradores das localidades, daqueles que consideram a favela como fonte de todos os males, "uma doença social, um tumor que deve ser extirpado cirurgicamente" permanece. As Unidades de Policia Pacificadora-UPPs vieram como solução para resolver "o problema das favelas", sem apresentar as melhorias prometidas à época de eleição, mas não cumpridas.

A prometida pacificação nas favelas cariocas ainda não veio

A falta de uma política habitacional que teria de vir em conjunto com profundas mudanças em toda a sociedade, não foi feita, e provavelmente nunca será. Devemos lembrar que o socorro aos estabelecimentos financeiros em uma das muitas crises do capital, foi infinitamente maior, que os recursos voltados para a construção de casas para a imensa população de favelados. Os mitos solidamente arraigados servem para fundamentar crenças pessoais e interesses da sociedade, e também para dificultar análises aprofundadas que viriam a desmistificar conceitos (e preconceitos) que continuam como verdades imutáveis moldando políticas públicas que afetam diretamente as populações das favelas e periferias urbanas.
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