31 de jul de 2013

AMARILDO,NEM VIVO NEM MORTO: DESAPARECIDO

 QUATRO ANOS DEPOIS CASO AMARILDO CONTINUA SEM SOLUÇÃO

Desde tempos imemoriais foi estabelecido o direito de sepultar os mortos para serem lembrados por meio de rituais e orações. Na cidade do Rio de Janeiro em 2013 esse direito foi negado.


No dia 14 de julho de 2013 há mais de dois anos o pedreiro Amarildo de Souza foi preso, torturado e morto por policiais militares. Continua até hoje desaparecido. Há alguns meses atrás apareceu nova versão para seu desaparecimento ocupando manchetes de jornal. A imensa população da Rocinha pergunta "porque a novidade só apareceu depois de dois anos?". Agora até o BOPE aparece como suspeito de carregar o corpo do pedreiro envolto em saco plástico para ser "desovado" em algum terreno onde jamais seria achado. Testemunhas aparecem e desaparecem. Muitas pessoas da Rua 2 e da Estrada da Gávea viram muita coisa, mas quem vai falar? Fica a velha lei em ficar de boca bem fechada e olhos bem atentos.
Lucia Helena, testemunha ocular do caso Amarildo desapareceu desde agosto de 2014, conforme declarações da Promotora Carmen Eliza Carvalho do Grupo de Investiga o Crime Organizado. A Justiça determinou pagamento de pensão à viúva de Amarildo, e parentes do pedreiro vão receber tratamento. Elisabeth viúva de Amarildo vai receber por enquanto salário mínimo, mas corre na justiça indenização por danos morais, reparação pelas ameaças, torturas que sofreram por parte de agentes do estado. Amarildo, morador da Rocinha é mais um número entre os milhares de casos de pessoas desaparecidas no Rio de Janeiro, que ficam sem nenhuma solução. Em debate ocorrido na Universidade Federal Fluminense sobre direitos humanos há três anos atrás fiz relato ao então Secretario de Direitos Humanos da Presidência da República Paulo Vannuchi Leme que as execuções, torturas e desaparecimentos ocorridos no estado superavam em muito as mesmas violações ocorridas durante os anos de chumbo, no período 1964/1985.O ministro ficou estarrecido.
O sumiço de Amarildo ocorreu em 14/07/2013,dias depois da invasão da Rocinha por mais e 300 policias com a alegação de cumprir mandados de prisão.
A esposa de Amarildo Elisabeth Gomes tem muito medo de sair da favela, temendo represálias por parte de policiais da Unidade de Policia Pacificadora-UPP da Rocinha. O governador Sérgio Cabral pressionado pelos protestos dos moradores ocorridos semana passada ocupando as duas faixas da autoestrada Lagoa Barra e a entrada do Túnel Zuzu Angel recebeu os familiares de Amarildo prometeu dar prioridade ao caso, e propôs a inclusão de Elisabeth e seus filhos no Programa de Proteção a Testemunhas. Ela recusou dizendo que em sua casa se sentiria muito bem protegida pela comunidade, que está revoltada com o desaparecimento do pedreiro. Buscas foram feitas em vários pontos da Rocinha, mas nada foi encontrado. Ontem foi encontrado o cadáver de uma pessoa no Valão que fica na parte baixa da localidade, mas verificaram que era de uma mulher, provavelmente de pessoa dependente de crack.
O delegado Orlando Zaccone da 15a DP na época pensou em concluir o inquérito, que vai passar para a Delegacia de Homicídios-DH sediada na Barra da Tijuca. Para ele não restam mais dúvidas Amarildo foi assassinado.


A ONG Rio de Paz que organizou protesto simbólico em Copacabana afirma que desde 2006 foram 35 mil casos de desaparecimento, a maior parte de mortes por execução. Um morador do Valão que não quis se identificar temendo represálias, disse que foi uma queima de arquivo, Amarildo sabia demais. O juiz Luiz Henrique Oliveira Marques não compartilha desta opinião e negou o pedido de morte presumida requerido pela família de Amarildo através de seu advogado João Tancredo.


Muitos protestos já foram feitos, mas os moradores da Rocinha prometem novos protestos, até que tudo seja definitivamente esclarecido e os culpados sejam condenados.

29 de jul de 2013

O CALVÁRIO DOS PEREGRINOS

Papa Francisco nota dez, Cabral e Paes nota zero

Não vou me esconder. Tenho de estar perto das pessoas. Não sou um faraó.
Papa Francisco


Os milhares de jornalistas estrangeiros assistiram estupefatos à serie de erros grosseiros ocorridos durante a Jornada Mundial da Juventude. Um misto de incompetência e corrupção quase fizeram sucumbir um evento grandioso que só a presença do Sumo Pontífice e seu enorme carisma, aliado à alegria contagiante de milhões de peregrinos que conseguiram superar as dificuldades imensas que quase tornaram a JMJ um fracasso.

Cadê o "Padrão Fifa" foi a pergunta mais ouvida pelas autoridades perdidas sem saber o que fazer. O Campus Fidel em Guaratiba foi erguido em cima de terreno pantanoso, e com a chuvarada que castigou o mês de julho virou um imenso lodaçal. Apesar do prefeito ter declarado "que a chuva não era natural neste período" o Alerta Rio já havia previsto chuvas intensas durante o mês de julho. Os moradores da Zona Oeste que esperavam com ansiedade a visita do Papa que traria melhorias e obras de urbanização ficaram decepcionados. Ficou a suspeita (quase certeza) que foi mais um favorecimento envolvendo governantes com empresas do "rei dos ônibus" Jacob Barata. O deslocamento feito às pressas para Copacabana sacrificou milhões de peregrinos que tiveram de se deslocar, a maioria a pé graças ao precário sistema de transportes da cidade. A paralisação de mais de duas horas do Metro obrigando os passageiros a andar pelos trilhos foi algo indesculpável que somente a incúria dos governantes cariocas poderia proporcionar à imensa legião de fieis que ficaram imensamente decepcionados.

peregrinos enfrentam filas imensas na estação metro carioca

Para salvar a JMJ São Pedro o primeiro bispo de Roma atendeu às súplicas dos fiéis mediadas por Santa Clara, trazendo um pouco de sol e alegria para o ultimo dia da Jornada da Juventude levando quase três milhões de fieis para Copacabana. Fica um saldo positivo para o Papa Francisco e uma nota negativa para a série de desmandos que a indiferença de um governo que vai se afastando cada vez mais da imensa população de nosso estado. Nas ruas foi ouvida uma só voz: "Fora Cabral".

24 de jul de 2013

FRANCISCO, ARAUTO DE DEUS

Papa Francisco, um jesuíta franciscano

Algumas pessoas me dizem: "Padre, os políticos não estão fazendo nada". Eu respondo: "Mas e você,
o que está fazendo? Se não fez nada então grite. Nunca desanimem, não deixem que se apague a esperança"

Papa Francisco

O argentino Jorge Mario Bergoglio é o novo Papa. Em fevereiro após a renuncia de Bento XVI ao trono de São Pedro o bispo Bergoglio de Buenos Aires foi escolhido para ser o novo pontifice. É a sua primeira visita oficial para a Jornada Mundial da Juventude-JMJ, em uma cidade mergulhada em uma serie de protestos que há mais de um mês se espalharam por todo o país. Na cidade cujo padroeiro é São Sebastião também cultuado como Oxóssi, mas que também venera Jorge-Ogum ele tem a missão difícil de trazer paz e esperança para uma juventude desesperançada pelo descaso de sucessivos governos ineficientes e mergulhados em corrupção. À maneira de São Francisco de Assis imortalizado pelo cineasta Roberto Rossellini em Francesco, Giullare de Dio ele se aproxima do povo, dos despossuídos, dos marginalizados,


O Bispo de Roma vai encontrar o Brasil em meio a uma crise mas sua missão é trazer seus fiéis para a fé em Cristo, que pregava a humildade, a caridade, a solidariedade para com todos, indiscriminadamente. No inicio os primeiros cristãos praticavam fielmente os princípios ensinados por Jesus, a verdadeira comunidade, no sentido de plena união. Com o passar dos anos muitos desses princípios foram esquecidos por muitos e praticados por alguns. Papa Francisco procura mostrar uma igreja mais austera, com menos pompa e circunstância. Sua comitiva é bem menor do que pontífices anteriores, e até do que alguns supremos mandatários brasileiros que viajam com um séquito cada vez maior, para garantir votos nas eleições que se avizinham.


O novo papa é um admirador de João Paulo II que veio três vezes ao Brasil. e é venerado pelos seus fiéis, que pedem sua canonização. Acompanhei as visitas de "João de Deus" ao Brasil e testemunhei a devoção de milhares de devotos, à procura de palavras de fé, esperança e caridade.

Papa João Paulo II está preocupado com os desmandos do governador

As autoridades locais parecem não comungar das mesmas ideias do Sumo Pontífice, desprovidos do espirito cristão de solidariedade não tem demonstrado nenhum interesse pelos milhares de peregrinos que vieram ao Brasil. O menos pior dos transportes urbanos fracassou, além de não dar vazão a uma situação de emergência ficou parado durante mais de duas horas na terça feira deixando não só os devotos de Cristo sem condução, mas também os usuários do metro. Muitos andaram a pé por entre os trilhos das estações. Como se não bastasse o Campus Fidel virou um mar de lama, tornando impossível a realização de missa campal para mais de um milhão de pessoas. Muitos fiéis tiveram de se deslocar da Zona Oeste para Copacabana. Fica uma pergunta no ar: Como vai ser durante a Copa??

14 de jul de 2013

A ERA BOLADO, UM BREVE E INTENSO REINADO

"Bolado foi o único socialista, dividindo com os pobres tudo que ganhava com seu comércio. Morreu sem um centavo"
Eliza Pirozzi
SERGIO BOLADO, UM "BANDIDO FORMADO"
"Eu tenho nojo de dinheiro, mãe, dinheiro é uma coisa muito suja" costumava dizer Sérgio Bolado para sua mãe Dona Maria de Lourdes, mineira, moradora da Rocinha desde a década de 40, Sergio Ferreira da Silva o Bolado era um jovem entregador de remédios de uma farmácia até tornar-se o maior narcotraficante do Rio de Janeiro. Bolado era o que podemos chamar de um "bandido formado" conforme a conceituação da antropóloga Alba Zaluar, que faz a diferença entre esse tipo e o "bandido porco", ou seja aquele que desrespeita as regras de convivência da comunidade. Seu começo foi como caxangueiro assaltando residências na Zona Sul e aos poucos foi ganhando a confiança de Denir Leandro, o Denys. A "Era Bolado" foi marcada principalmente pela disputa travada com o jogo do bicho na favela. Era uma rixa pessoal contra Luís Carlos Batista, contraventor, dono dos pontos de bicho na Rocinha e Vidigal. No centro da disputa além do domínio territorial, estava o carinho e amizade da líder comunitária Maria Helena. Bolado sucedeu a Dedé, executado pelo grupo no bunker da Rua Dois. A ordem veio de dentro da cadeia.

Sergio Bolado foto Alcyr Cavalcanti all rights reserved
Conheci Bolado em uma tarde quente em janeiro de 1988, durante minha temporada na "maior favela da América do Sul". O sol estava a pino, quase cinquenta graus. Estávamos eu, o repórter Jorge Barros e o motorista Sombra tentando desvendar o que havia por trás de uma serie de versões sobre a matança quase diária na "Guerra da Rocinha". Havia um pequeno detalhe, estávamos procurando trabalhar sem a identificação de jornalistas a serviço do Jornal do Brasil. A imprensa era indesejada na favela, após a publicação do grupo do Bolado em destaque no JB, com um detalhe, estavam todos armados e com o rosto descoberto. As imagens foram obtidas em um churrasco oferecido pelo bando aos repórteres intermediado pelo Geraldo da Caipira,  figura da contravenção e muito querido por todos, com a condição de não serem fotografados nem gravados. O acordo não foi cumprido, o que para o grupo era traição imperdoável, com o agravante das fotos terem ido parar misteriosamente na mesa do delegado Peter Gersten, o segundo homem em importância na política de segurança do Rio de Janeiro. A estratégia quase foi fatal, os dois lados da disputa tinham certeza que éramos policiais fazendo levantamento. A duvida era se pertencíamos à PM2 ou à Policia Federal. Na época alguns jornalistas tinham densas relações com o aparato repressivo. Felizmente Jorge e eu sabíamos praticar nosso oficio de apenas informar, de procurar a verdade por detrás das aparências, sabendo que jornalista não é policial nem bandido, é apenas jornalista.
Sergio Bolado após intenso tiroteio com o grupo rival (os encapuzados) conseguiu nossa rendição, e uma provável execução por um tribunal inclemente. Seu braço direito Buzunga iria nos executar após a rendição. Bolado a frente de um grupo com quinze homens muito bem armados segura o cano do fuzil do imediato e promove a sentença:" Aqui quem manda matar, quem manda viver, sou eu. Eles dizem que são repórteres, quero a ver a matéria deles amanhã, contando tudo, senão vou buscar cada um onde estiver".
foto Alcyr Cavalcant all rights reserved

A matéria foi publicada em destaque no Caderno Cidade do JB, mostrando a destruição causada pelos encapuzados, grupo rival, uma proto-milícia. Depois de alguma negociação, ele nos deu uma longa entrevista publicada sem nada omitir, nem modificar em uma edição especial em fevereiro com o título "Rocinha SA" editada por Zuenir Ventura. A partir dessa data ficamos amigos. Afinal tínhamos uma divida de sangue com ele. Bolado nos deu uma sentença de vida, o que possibilita minha entrada na Rocinha até os dias de hoje, para rever velhos amigos.

1 de jul de 2013

COPA DAS MANIFESTAÇÕES

Brasil campeão na bola e nos protestos




A vitória incontestável da seleção brasileira deu alegria merecida e provavelmente fugaz a um povo que tem sido constantemente explorado em vários níveis. A truculência policial durantes os protestos nas principais cidades, em especial no Rio de Janeiro e São Paulo contra um péssimo sistema de transportes tem mostrado um despreparo do aparato policial que pode levar a uma escalada da violência a níveis incontroláveis. Ameaças, agressões, emprego de armamento não letal, mas que pode levar à morte desde que usado indiscriminadamente, tem vitimado não só jornalistas que estavam somente cumprindo a tarefa de informar à população, mas também atingindo manifestantes que pacificamente estavam protestando contra uma serie de desmandos por parte dos governantes, que arrecadam montanhas de dinheiro e muito pouco oferecem em troca. Causa surpresa que um Estado que se diz democrático-popular fique agindo como em tempos sombrios onde tudo era proibido, principalmente o direito à informação. Desde os primeiros protestos o aparato repressivo ficou voltado para profissionais da imprensa que estavam procurando registrar momentos para a historia.
No Rio de Janeiro a violência policial atingiu o ponto máximo durante as manifestações do dia 20/06 onde mais de 400 mil pessoas protestaram inicialmente de forma pacífica. A maior parte dos protestos foi dirigida ao Governo Estadual, principalmente contra os gastos excessivos na reforma do "Novo Maracanã", com orçamento inicial de pouco mais de R$600 milhões, que passou como num golpe de mágica para um bilhão e duzentos milhões de reais, podendo ser reajustado conforme declarações do governador Cabral que alegou "fatores imprevisíveis". Apesar da beleza arquitetônica o preço dos ingressos segundo o "Padrão Fifa" tem afastado o povão do antigo Templo do Futebol. Enquanto a torcida vibrava com os dribles de Neymar manifestantes do lado de fora foram encurralados pela tropa com cassetetes, bombas e armamento de "efeito moral". O Padrão Fifa tornou-se um critério de qualidade, mas foi adotado somente no estádio, enquanto isso escolas e hospitais ficam abandonados, professores e médicos tem precárias condições de trabalho e salários aviltantes trabalhando em uma outra realidade, em um "Padrão Cabral" onde a propaganda não corresponde aos fatos.


A população tem se sentido acuada, a violência tem se generalizado, carros de reportagem tem sido incendiados, jornalistas vitimados, lojas saqueadas em uma situação que foge ao controle, podendo levar a uma luta de todos contra todos



A sociedade espera respostas imediatas por parte dos governantes que ainda não estão acreditando na revolta popular. Foram anos e anos da mais completa indiferença face aos problemas que poderiam e deveriam ter sido solucionados, pelo menos em parte. Acorda Brasília.

obras do pac

obras do pac
inicio de obras ao lado do ciep ayrton senna