4 de dez de 2013

UM ENCONTRO NO ALTO DA RUA UM

A Rua Um é o Coração e o Cérebro da "Maior Favela da América do Sul"

Tive meu primeiro contato com o centro nervoso da favela em janeiro de 1988. Estava passando uma temporada na Rocinha e fui acordado por um tiroteio cujo foco era a Rua Um. Partimos para lá eu e o querido amigo jornalista Jorge Barros, de ônibus eram 06h da manhã de um dia de verão. detalhe estávamos a pé, o carro do JB havia sido dispensado. Uma multidão de curiosos estranhou nossas câmeras e gravadores. Subimos afoitamente a rua e cruzamos com dois corpos sendo carregados para a entrada da rua. Muitos reclamavam pela nossa presença qual "aves de rapina", mas teríamos de começar a fazer nosso trabalho: matéria especial sobre a "guerra entre o jogo do bicho e o trafico". Os corpos foram colocados próximo a um bar na entrada da rua. A pericia e a delegacia local haviam chegado.


Muitas vezes passei novamente pela rua, ás vezes a serviço de reportagem, ás vezes a passeio, às vezes fazendo "trabalho de campo" para minha tese de mestrado para a UFF. É um dos mais belos visuais de nossa cidade, podemos avistar quase toda favela, e a praia de São Conrado e seus edifícios luxuosos. Foi lá que em 1997 conheci o "dono do morro". estava á serviço do Canal Plus (França) indicado pelo grande diretor de cinema Silvio Tendler guiando os franceses pelos inúmeros becos e vielas em segurança. Obviamente pedi ajuda ao amigo já falecido Jorge Mamão líder comunitário que transitava em todas as áreas de negócios, fossem lícitos ou não. Sabia que para poder andar em liberdade era necessário pedir autorização ao "dono do morro" à maneira de Spike Lee fazendo a coisa certa. O documentário iria focalizar os divertimentos de sábado à noite dos jovens no Rio de Janeiro. nos bailes funk, um contraponto aos jovens em Montreal, Moscou e Paris. O personagem central era Mc Gorila, morador da Vila Verde um dos 17 sub bairros da favela, que fazia muito sucesso com o rap do Gorila.

Mc Gorila sucesso no baile funk
Fomos eu e um jovem indicado pelo Mamão, o China, pedir autorização ao dono do baile funk, que já estaria avisado. O encontro foi no meio da Rua Um em uma bifurcação. Apareceu um jovem branco vestido com bermuda e tênis de grife, sem camisa, estávamos em pleno verão, perguntando o que pretendia. Ouvia atentamente, mas respondia de maneira cortês mas secamente com monossílabos. Um detalhe seu olhar era aduro e frio, quase cortante fazendo lembrar a música de Adoniram "seu olhar mata mais do que bala de carabina, de veneno estricnina de peixeira de baiano", dava calafrios. Depois de ouvir atentamente ele disse que estava tudo bem, mas com uma questão, somente poderíamos exibir as imagens na Europa, nenhum fotograma sequer no Brasil. Ele estava sozinho, sem arma mas a um três metros um negro alto e forte acompanhava tudo com atenção, e no alto de uma laje dois fieis armados com fuzis faziam a contenção. Só minutos depois vim a saber que o dono do baile era também o "dono do morro!" seu nome era Lobão, nascido Fernando Freitas reinou na favela até abril de 2000 com plenos poderes. Lobão teve um curto reinado, segundo a versão oficial morreu em acidente, mas a família contesta e não reconheceu o cadáver. Ele teria fugido e arranjaram outra pessoa para ser enterrada em seu lugar.

1 de dez de 2013

A TORTURA COMO MÉTODO DE INVESTIGAÇÃO


"Tortura, violência física para arrancar uma verdade que de qualquer maneira, para valer como prova tem que ser em seguida repetida diante dos juízes, a título de confissão espontânea"
Michel Foucault
PROTESTOS CONTRA TORTURA EM TODO PAÍS
ESTUDANTES MORADORES DA PROVIDÊNCIA DENUNCIAM VIOLÊNCIA POLICIAL
O Método de Interrogatório Intensivo é prática nas UPPs
"Deixa comigo, bota ele no pau de arara, que vai falar tudinho"
                                    Um delegado famoso pela linha dura.

Estudantes secundaristas fizeram relato na noite de segunda dia 27/06 em Ato organizado pelo Grupo Tortura Nunca Mais no auditório João Saldanha do Sindicato dos Jornalistas sobre atos de violência praticados por policiais militares, não só invadindo casas no Morro da Providência, mas também quando da Greve da Educação, que continua sem solução até os dias de hoje. Estamos vivendo tempos sombrios que deveriam estar definitivamente sepultados, a mais triste herança da tortura, com o nome sugestivo de método de interrogatório intensivo. Uma pratica eficiente que só interessa ao carrasco para transformá-la em verdade dos fatos. Empregada como rotina está definitivamente arraigada em parte do aparato repressivo fazendo lembrar um passado inquisitorial, onde o preso confessava o que cometeu e o que não cometeu. Choques elétricos, afogamentos em privadas, pau de arara, botar no saco (asfixia por saco plástico), o laboratório do suplicio tem múltiplas formas de extorquir a confissão a qualquer preço, fazendo valer uma falsa verdade. Em pleno século XXI estamos usando métodos medievais que foram revividos no período 1964-1984. As práticas insanas continuam desafiando a justiça. o número de denúncias aumentou em 129% desde 2011. O número pode ser muito maior, muitas vítimas não prestam queixa intimidadas pelos algozes que mudaram o alvo, da perseguição aos inimigos políticos passaram a caçar os despossuídos que não tem como se defender. A tortura foi oficializada pela repressão. O Ministério Público entrou com ação contra 31 policiais militares da Unidade Pacificadora da Rocinha acusados de torturar moradores, entre eles adolescentes e mulheres grávidas.

A policia brasileira colocava presos em celas pequenas em companhia de jacarés, cobras e outros animais para obter o relato que interessava ao torturador Um delegado "linha de frente" colocava o preso dependurado pelos pés e ameaçava soltar, para uma queda de quatro andares, talvez influenciado pelo magnifico filme The Killers de Don Siegel (1964) com Lee Marvin como o matador de aluguel. O delegado era um dos homens de ouro criado pelo general França para acabar com a criminalidade.
O Ato-5 de dezembro de 1968 acelerou os poderes discricionários durante os "anos de chumbo" com a alegação do combate a uma guerra revolucionaria. Triste herança,agora para o Estado o inimigo é outro, enquistado nos morros e favelas, mas os métodos são os mesmos, centros de tortura continuam em funcionamento fazendo reviver a "casa da morte" de Petrópolis onde de quase uma centena de prisioneiros somente uma, a jornalista Inês Etienne Romeu sobreviveu, mas com sequelas graves.

Por ter se estendido por mais de 21 anos a ditadura deixou raízes profundas na vida nacional e interrompeu a livre criação de mais de uma geração. As organizações de defesa de direitos humanos estimam em mais de 100mil pessoas perseguidas pelo regime de exceção. Herança maldita, atualmente nossa policia, principalmente a PM tem usado a tortura como prática quase diária tendo como alvo os despossuídos, elegendo como inimigo interno a venda de drogas, a varejo, em uma "guerra santa" contra as favelas cariocas, onde os moradores saem derrotados. O numero de vitimas por balas perdidas ou por auto de resistência é infinitamente maior, o que vem colocar em xeque a politica de pacificação.

obras do pac

obras do pac
inicio de obras ao lado do ciep ayrton senna