10 de out de 2015

O ARRASTÃO DA ROCINHA

A NOITE DO ARRASTÃO DA ROCINHA, UMA FESTA SEM VIOLÊNCIA, UMA FESTA SEM DONO


A postagem é um resumo de uma parte do capítulo IV de minha tese de mestrado "Samba, Jogo do Bicho e Narcotráfico" defendida na Universidade Federal Fluminense no final do ano de 2001 no Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Ciência Política, sob a orientação da eminente pesquisadora a antropóloga Simoni Lahud Guedes. O arrastão da "maior favela da América do Sul" era um arrastão diferente, que partia de uma favela diferente, não existia nenhuma forma de violência. Possui também um sentido simbólico, de invasão de um território demarcado por diferenças sociais de forma inteiramente pacífica e permitia uma aproximação igualitária entre os componentes da escola e os membros da diretoria. Em nossos dias normalmente é feito nas praias lotadas por um grupo formado por 20 a 30 jovens que levam tudo das pessoas que veem pela frente, roupas, dinheiro, calçados, celulares, enfim tudo o que der para levar. O termo começou a ser usado pela mídia em outubro de 1992 em que  estariam alguns jovens de Vigário Geral e de outras localidades e foi descrito pelo jornalista Zuenir Ventura em seu livro Cidade Partida.  Na Rocinha o arrastão tem um sentido diferente. Os componentes do GRES Acadêmicos da Rocinha invadem o espaço público, as ruas, bloqueiam as vias de acesso exclusiva de automóveis e coletivos e procuram atrair as pessoas para seu desfile, que mais parece o desfile antigo dos "blocos de sujo" que atuam com a maior espontaneidade. Os componentes descem do morro "invadem o asfalto" de forma lúdica, inteiramente pacífica, apenas para brincar o carnaval. Após  a sua marcha/desfile os componentes do bloco se dirigem para a quadra onde a festa atinge o ápice de animação. Embora formado basicamente por moradores do Morro, procuram atrair pessoas dos prédios suntuosos e do hotel cinco estrelas de São Conrado. Não há necessidade de fantasia nem destaques ou alegorias, as roupas são como as de um bloco de sujo, calções e biquínis e saídas de praia. O "Arrastão da Rocinha" é um derivado dos antigos banhos de mar a fantasia, que devido a interesses comerciais e controle social saíram do calendário carnavalesco, e ao contrário dos desfiles oficiais entra quem quiser, em ritmo de total liberdade, uma festa sem dono. Participei do Arrastão uma vez,em um domingo no ano 2.000, a convite do presidente da Acadêmicos da Rocinha, Ivan Martins que embora fosse o  principal componente participava da festa como "o mais comum dos mortais", sem nenhum segurança, vestido apenas de uma bermuda e tênis, mas conduzindo o trajeto na maior paz e harmonia. Não sei se nos dias de hoje, o arrastão diferente continua a alegrar as noites de domingo de verão em São Conrado, os tempos mudaram, a cidade ficou cada vez mais partida, as diferenças entre favela e asfalto aumentaram, e a tão sonhada pacificação ainda não veio.
Postar um comentário

obras do pac

obras do pac
inicio de obras ao lado do ciep ayrton senna