29 de dez de 2012

GRES Acadêmicos da Rocinha

O NASCIMENTO DE UMA ESCOLA DE SAMBA
A ROCINHA FAZ HOMENAGEM AO CARNAVALESCO VIRIATO FERREIRA
O GRES Acadêmicos da Rocinha em alguns desfiles tem sido  a primeira escola a desfilar sexta feira na "Passarela do Samba" e luta para voltar à elite do samba, tentando superar dificuldades financeiras. A insensibilidade dos "donos da TV" que preferiram colocar programas pífios em vez de transmitir a alegria dos passistas e destaques da Rocinha. A Acadêmicos da Rocinha não foi ao ar, ao vivo e a cores. Em 2017 a Escola da Rocinha faz enredo em homenagem ao carnavalesco Viriato Ferreira.
Adriane Galisteu foi rainha da bateria fotoAlcyr Cavalcanti all rights reserved
 Fundada em 30 de março de 1988 conforme consta em sua bandeira, e em seu livro de atas, tem a borboleta como símbolo, e suas cores são o azul do céu,o branco da paz e o verde da esperança. No panteão dos bichos da contravenção é um símbolo feminino flutuando de flor em flor, representando a beleza das mulheres da Rocinha. Pertence ao Grupo IV, dezenas 13,14,15,16,para os apostadores um bicho de bom agouro.
No dia 17 de julho de 1988 na garagem de ônibus da Transportes Amigos Unidos(TAU)na estrada da Gávea foi oficialmente fundado o GRES Acadêmicos da Rocinha, tendo como primeiro presidente (interino) Ailton Rosa e como carnavalesco Joãozinho Trinta, na época na Beija Flor de Nilópolis. Foi uma noite em que o morro esteve em festa (pelo menos uma parte), enquanto em um palanque a cúpula da contravenção abençoava a "caçulinha das escolas de samba", do outro lado da Baía de Guanabara em São Gonçalo, os lideres do tráfico na favela,que tinham conseguido escapar das invasões policiais eram executados um a um. Os principais membros do "bando da Rocinha", como eram conhecidos no meio policial, foram eliminados após intenso tiroteio em um sítio no Morro do Grotão no Engenho Pequeno em São Gonçalo. Foram mais de cinquenta policiais comandados pelo capitão PM Fonseca Melo contra Naldo, Cassiano Barbosa da Silva e seu irmão Leandro, Fabio o Brasileirinho que tinha 14 anos sua namorada Simone da mesma idade, Adauto o Molecão Erick Melo filho de uma juíza, conhecido como intruso e duas mulheres que acompanhavam o grupo. O ambiente da casa era aterrador, explosões de granada arrasaram o pequeno sítio. Para um morador que não quis se identificar "foi um massacre, uma execução em massa".


Castor  abençoa Acadêmicos da Rocinha foto Alcyr Cavalcanti all rights reserved

O GRES Acadêmicos da Rocinha veio para trazer a Paz

foto Alcyr Cavalcanti all rights reserved

No entanto para os moradores da localidade, a escola foi fundada em uma noite quente de verão, no alto da Rua Um, com a mediação da matriarca Eliza Pirozzi.De um lado Sérgio Bolado e seus fiéis, do outro lado Anisio, Luisinho e seus guarda costas, todos convenientemente "preparados". Foi feito um acordo de cavalheiros entre o narcotráfico e o jogo do bicho para acabar com os constantes tiroteios entre os dois grupos, que haviam transformado a favela em uma guerra sem fim.

Joãozinho Trinta foto Alcyr Cavalcanti all rights reserved
A nova escola de samba veio da união de três blocos, Império da Gávea, Unidos da Gávea e Sangue Jovem, que viviam em constante rivalidade, quebrando a harmonia na grande favela. O espaço que viria como "um remédio para a violência" conforme as palavras de seu primeiro presidente Ailton Rosa, seria uma forma de pacificação.
Ailton foi o sócio fundador número 01, era conhecido como servente , teve um mandato muito curto, sendo sucedido pelo seu vice Ivan Martins, sócio fundador número 02.Outros fundadores foram entre outros Sérgio Ferreira da Silva o Bolado, Denyr Leandro o Denys que dominavam a venda de drogas a varejo e líderes comunitários como Jorge Luis da Silva o Jorge Mamão Eliza Pirozzi, Jorge Collaro e Sebastiana Leonora da Mota. Padrinhos muito fortes e com vasto conhecimento das regras do mundo do samba, Castor de Andrade, Anisio Abrahão e Turcão os capos da contravenção, davam orientação a seus representantes locais em especial a Luis Carlos Batista, filho do banqueiro de bicho  China, dono dos pontos de jogo do bicho da Rocinha e Vidigal. O primeiro desfile da escola foi na estrada Intendente Magalhães em Campinho no carnaval de 1989.


Ivan Martins  presidente muito querido da Escola foto Alcyr all rights reserved







15 de nov de 2012

O CRIME É ORGANIZADO?

"Existe um crime organizado, alguns são presos e outros não. O Estado tem interesse em organizar o crime. Não é o crime que se organizou em si mesmo".
Padre Andre Hombrados,coordenador da Pastoral Carcerária.

NO RIO DE JANEIRO ATÉ O CRIME É DESORGANIZADO



A primeira rede criminal Falange Vermelha foi criada como uma forma de resistência contra condições sub humanas nos presídios cariocas, primeiramente na Ilha Grande devido á convivência com presos políticos incursos na Lei de Segurança Nacional-LSN, no final dos anos 60 e início dos anos 70. Muito se fala em "crime organizado", mas no Rio de Janeiro, em uma abordagem mais ampla quando analisamos a sua face mais visível, o narcotráfico,o que parece acontecer é uma grande desorganização no chamado mundo do crime, acirrada pela disputa dos pontos de venda de drogas,a varejo, e consequente domínio territorial.É um salve-se quem puder, visando somente as altas taxas de lucro resultantes da venda das "mercadorias do prazer"(Michel Misse). As disputas acontecem não só entre as maiores redes associativas como o Comando Vermelho, Terceiro Comando e Amigos dos Amigos, mas em algumas ocasiões dentro das próprias redes, onde dissidências são formadas, fazendo lembrar alguns grupelhos de esquerda, provavelmente equivocados.O espírito de solidariedade, a união contra condições adversas que motivou a criação da Falange Vermelha não mais existe. O individualismo exacerbado, típico do Sistema Capitalista impera, levando à formação de redes de maior ou menor conexidade, movidas somente pelo "olho grande". Os pontos de maior venda de drogas, são motivos de cobiça. O crime vai aos poucos tornando-se uma indústria, a "indústria do crime", onde seus agentes mais visíveis, os "soldados do movimento" vão tombando um a um, sendo substituídos como meras peças de reposição.
"O 'olho grande' é apontado como o motivo principal das guerras entre quadrilhas ligadas ao narcotráfico na cidade do Rio de Janeiro. O 'olho que cresce'-desejo de poder, desejo de expandir os negócios que a aliança vem a frear ou, inversamente, desenvolver.Frágil equilíbrio. Basta apenas um bom motivo, real ou imaginário- 'o cara não tá agindo certo'- para que uma guerra se inicie. De ambos os lados as alianças são acionadas. Grupos de soldados deslocados reforçam os exércitos em guerra. Pode durar meses, pode se resumir a uma noite" (Antonio Rafael).



As redes criminais, pelo menos por enquanto, estão longe da organização das máfias italianas onde existem regras estabelecidas, representantes no aparelho de estado e relações familiares em compromissos de sangue para a formação de uma famiglia.. As lutas constantes entre as quadrilhas rivais para a tomada de território, denominadas "guerras" indicam que não houve ainda uma centralização de poder, a nível burocrático e um consequente alto nível de organização. Os bandidos sabem que não tem nenhuma proteção externa, só podem contar com a compra da proteção, e com a lealdade de seus membros, lealdade que muitas vezes é substituída pela "trairagem". Apesar da desorganização as redes criminais crescem, em parte devido a uma politica de segurança ineficiente, em parte pelo descaso dos governantes. O Primeiro Comando da Capital-PCC tem espalhado seus tentáculos em vários estados, em alguns como no Rio de Janeiro em associação com o Comando Vermelho-CV. Segundo documentos da Secretaria Nacional de Segurança do Ministério da Justiça o PCC movimenta mais de R$72 milhões por ano com venda de drogas e contribuição dos associados, que tem de ser paga religiosamente. É a caixinha do PCC, onde qualquer desvio de conduta é punido com rigor.
Para William da Silva Lima a respeito do crime: "Nunca houve tal guerra, nem tal tipo de pacto, nem a anunciada "falange" sua patrocinadora. O que se fez foi completamente expontãneo. A ajuda recebida na cadeia nunca ultrapassou o mínimo necessário para diminuir a miséria. Infelizmente nunca contamos com montanhas de dinheiro para financiar fugas.Aliás é bom lembrar que assaltar bancos é menos rendoso do que se diz, pois os montantes divulgados são sempre maiores do que do que a realidade.Quem mais rouba? Não sei. Os bancários roubam do banco. Ou- quem sabe? O banco rouba do fisco ou do seguro, tudo o que perde para nós. Os riscos é que são todos nossos, meros coadjuvantes na indústria do crime".

9 de set de 2012

ELEIÇÕES 2012:Doze candidatos, uma vaga

Doze candidatos disputam 30mil votos para uma vaga na "gaiola de ouro"
atualizado em 05 de agosto de 2014
A corrida em busca de votos começou um pouco morna. A questão é se Claudinho da R1 ainda vai ter influência na Eleição 2014.Ele teve 8.235 votos na Rocinha, mas faleceu antes de terminar sua missão. Será que algum candidato local vai ser herdeiro de seus votos, e conseguir completar seu mandato?

Começou a corrida eleitoral para ter o direito de representar a "maior favela da América do Sul" junto ao prefeito da cidade do Rio de Janeiro. Alguns são bem conhecidos como Antonio Xaolin (PCdoB) e Leonardo Rodrigues Lima (PTN)por terem exercido a presidência da UPMMR, a maior das três associações que representam os moradores da Rocinha.Outros nem tanto, como "Caroço do moto-taxi" que quer legalizar em definitivo o meio de transporte mais rápido no emaranhado de becos e vielas.
Alguns correm por fora, como a presidente do Flamengo Patricia Amorim, que tenta a reeleição contando segundo um cabo eleitoral com apoio do prefeito Eduardo Paes, e segundo ela da torcida do mengão.Na última eleição concorrendo pela sigla PSDB a candidata teve 21.140 votos.Paulo Pinheiro, agora no PSOL faz ferrenha oposição ao prefeito, principalmente na área da saúde. Pinheiro confia em seu passado,em sua administração à frente do Hospital Miguel Couto, que atende os milhares de moradores da localidade.Na eleição de 2008 teve 20936 votos.
Para alguns moradores Leonardo, o Léo da UPMMR é o que deve ter mais chances de conseguir a vaga, ele tem à sua disposição a máquina da associação e um bom número de cabos eleitorais. Ele seria o sucessor direto de Luis Claudio de Oliveira, o Claudinho da R1, eleito com 11.513 votos,principalmente em urnas da Rocinha, Vidigal e Complexo de São Carlos que faleceu durante o exercício de seu mandato, e William DJ atualmente preso sob acusação de associação ao narcotráfico.Ambos presidiram a União.
O narcotráfico embora enfraquecido e vivendo nas sombras devido à invasão policial, continua atuante e ainda poderá exercer alguma influência no processo eleitoral. Muitos comerciantes lamentam o excessivo aparato repressivo, que estaria levando alguns comerciantes à beira da falência.

a coleta de lixo ainda é um problema

A Cãmara de Vereadores do Rio de Janeiro tem 51 representantes com mais de dois mil funcionários, sendo a segunda mais cara do país. Cada um de seus representantes custa mais de sete milhões de reais anualmente. Para Claudio Abramo da ONG Transparência Brasil os vereadores não cumprem seu papel principal que é fiscalizar o Executivo, garantindo que os recursos sejam aplicados de acordo com a lei. É muito dinheiro para quase nada. As principais funções de um prefeito são fazer os serviços públicos funcionarem corretamente, garantir a realização de obras necessárias para a população, e administrar corretamente o dinheiro do municipio.

A corrida pelos votos tem levado a situações de confronto, que parece ser uma característica da localidade. O candidato a vereador Adelson Guedes afirmou ter sido ameaçado por um grupo que fazia campanha para Leonardo Rodrigues.Um dos cabos eleitorais de Léo da UPMMR teria agredido o candidato com socos e pontapés. Adelson registrou queixa na 15a DP na Gávea, e pede proteção policial para percorrer novamente os becos da favela sem sofrer nenhuma ameaça.

Comentário de José Ribamar, morador da Rua 2, a respeito da agressão ao candidato:"Ele deu foi muita sorte. Só levou um sacode, uns tapas na orelha. Se fosse na Baixada, ou lá na minha terra em Garanhuns ele ia direto pra vala"


21 de ago de 2012

BILHÕES PARA OBRAS DO PAC

OBRAS DO PAC-1 FICARAM SÓ NA PROMESSA

postagem atualizada em 18/10/2014
A presidente deveria anunciar a conclusão das obras que ficaram para trás e não fazer novas promessas
Douglas Silva, morador
As promessas continuam em ritmo de eleição
Moradores da Rocinha estão saturados de promessas feitas, mês após mês que nunca foram cumpridas. É o caso de Eliane Oliveira que cansada de ser enganada, está investindo o que tem e o que não tem no Itanhangá, na Barra da Tijuca. Teve de abrir mão de sua casa em função das fictícias obras na área chamada Valão, um dos acessos para quem vai para a parte alta da favela. As melhorias que seriam feitas no PAC-1, foram transferidas qual uma novela fantasma para o PAC-2, e quem sabe, para um PAC-3. Eliane recebeu pouco mais de R$70 mil, quantia que só deu para comprar um terreno. Eliane é somente mais um caso, dos milhares de casos, que esperam pelas prometidas obras. Ela, de tanto esperar resolveu ir embora para recomeçar a vida em outro lugar.
Apesar das obras do PAC terem ficado somente na promessa, a presidente Dilma há muito tempo atrás, anunciou que as favelas da Rocinha, Jacarezinho e da Cachoeirinha irão ter uma injeção de cerca de R$2,66 bilhões para investimentos em diversas áreas. Dilma foi até a Rocinha, que vai levar a maior parte, mais de R$1,6 bilhões. Os moradores aguardam com ansiedade as melhorias prometidas e não cumpridas. As obras do PAC-1 iniciadas em 2008 foram interrompidas em 2011 sem que houvesse uma explicação plausível. A postagem feita na época mostra que as promessas foram apenas conversa fiada, o que já era esperado, afinal a maior parte delas foi feita pelo governador Sergio Cabral na inauguração de agencia do Banco do Brasil. Para um líder comunitário que não quis se identificar, "quase nada vai ser feito, é apenas um discurso vazio, que serve para enganar o povo". Uma das localidades onde nada foi feito foi a micro área "Roupa Suja" que fica logo na entrada da Rocinha, acima do túnel. É a área mais visível onde a policia não entra, apesar de uma creche que atende centenas de crianças, e onde tem ocorrido uma serie de tiroteios, o mais recente vitimando um turista alemão.
O governador Luiz Fernando Pezão aproveitando o clima de festa prometeu fazer o esperado teleférico, resolver de vez o problema de esgoto e fazer uma elevatória para levar água para os mais de cem mil moradores. Pezão, segundo um antigo morador que tem muito prestigio na localidade me confessou que o governador foi um frequentador da Rocinha, há anos atrás ia semanalmente ao Valão contatar lideranças comunitárias pedindo votos.


roupa suja espera urbanização prometida foto alcyr cavalcanti

Governador prometeu urbanizar a Rocinha e não cumpriu.
Sérgio Cabral em dezembro de 2011, na inauguração de uma agência do Banco do Brasil anunciou aos moradores da Rocinha que a presidente Dilma iria liberar R$700 milhões para as obras do PAC-2 no primeiro semestre de 2012. O então vice-governador Luiz Fernando Pezão disse que e o estado espera receber R$3,5 bilhões para a implantação das obras de saneamento, urbanização e sistema de transportes na segunda fase do Programa de Aceleração do Crescimento. Parte desse montante seria destinado para abrir novas frentes de trabalho em várias localidades, principalmente Rocinha, Alemão e Manguinhos, que têm alto índice de desemprego.
Para Sérgio Cabral "O PAC será extremamente ousado. Vamos ter 100% de saneamento, de drenagem e de água.Teremos ainda o teleférico garantindo mobilidade à população e atração de negócios para a Rocinha. Ruas serão alargadas e construiremos novas habitações" afirmou.
O Caminho e o Largo do Boiadeiro serão urbanizados, está sendo prometida também a construção de um mercado público com três andares, além da construção de uma creche modelo. A principal obra prometida é a construção de um plano inclinado que ligará o tunel Zuzu Angel à Rua Um, prometida até o dezembro de 2012. A previsão é transportar mais de 3 mil pessoas por dia. O projeto inicial previa também a construção de outro plano inclinado, mas foi substituído por um teleférico, semelhante ao do Morro do Alemão. As obras seriam integradas ao Metro na Linha 4.
A reurbanização do Largo do Boiadeiro, e do Valão onde existe intenso comércio e também um ponto de encontro aos domingos,é um dos pontos principais,onde serão feitos um conjunto de obras de prevenção às enchentes e melhoria estética, tudo até o final de 2012.


Os moradores da "maior favela da América do Sul" estão divididos entre a esperança de que dias melhores hão de vir,apostando na firmeza e na retidão de caráter da presidente Dilma, e a desesperança de muitas promessas não cumpridas feitas por alguns espertalhões que só visitam a favela em época de eleição e só pensam em rapinar o nosso dinheiro, dinheiro de quem trabalha de sol a sol.

'roupa suja': a urbanização ainda não foi feita

10 de ago de 2012

ROCINHA SEM FOME

A DISTRIBUIÇÃO DE ALIMENTOS É UMA TRADIÇÃO NAS FAVELAS
É O PROGRAMA "FOME ZERO" BEM ANTES DOS GOVERNOS ENGANADORES
A distribuição de alimentos para os necessitados sempre foi uma tradição não só na Rocinha, mas em muitas outras favelas onde a repartição de bens era uma lei. A união entre os diversos poderes legalizados ou criminalizados visando o bem comum sempre existiu. Um ou dois caminhões distribuem gêneros dos mais diversos fazendo uma política assistencialista, ignorando a alta de preços e as crises cíclicas do capital.O "Fome Zero" não foi uma invenção nem do Lula, nem do Fernando Henrique , embora eles vivem dizendo aos quatro ventos que foram os inventores do programa feito para aplacar a fome dos "caidinhos".Desde a "Era Denys", na década de oitenta, que o caminhão de alimentos é religiosamente distribuído no alto da favela, na maioria das vezes na Rua Um, tradição seguida fielmente pelos seus sucessores.Reza a lenda que Denir Leandro, o Denys no início de seu "reinado" após a eliminação de Zé do Queijo, em reunião com seus fiéis baixou uma ordem: "Chega de miséria no morro, não quero ver mais ninguém passando fome". Assim teria começado o "Fome Zero" da Rocinha. Mas afinal quem banca as despesas, com os preços subindo dia-a-dia , ás vezes lentamente, às vezes na chamada espiral inflacionária? A solução através dos tempos tem sido formar uma aliança cooperativa entre os diversos poderes que sempre existiram na "maior favela da América do Sul", pelo menos até agora: o comércio regular legalizado, o jogo do bicho, e o movimento.

Fome Zero photo Alcyr Cavalcanti all rights reserved

Mas nem sempre foi assim.Em 1988 uma verdadeira guerra entre o narcotráfico e o jogo do bicho interrompeu a tão esperada distribuição de alimentos, deixando muitos com a barriga vazia, e alguns mortos durante a refrega. O tráfico chefiado por Sérgio Bolado e o jogo do bicho cujo dono dos pontos era Luis Carlos Batista travaram uma disputa que deixou um rastro de mortos e feridos durante alguns meses. A situação só ficou resolvida depois de uma tensa reunião no alto da Rua Um quando foi assinado um armistício, e foi criado o GRES Acadêmicos da Rocinha, que viria segundo as palavras de seu primeiro presidente Ailton Rosa "como uma cura para a violência, uma forma de pacificação". Só assim o tão esperado caminhão de alimentos voltaria a ser distribuído.

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Com a chegada do novo milênio outros segmentos também resolveram aderir à distribuição de alimentos. Gilbert Leal, o "Cabeça do Futivolei" promove o "Natal sem Fome" e vários outros eventos, como torneios de vale-tudo, voleibol, futebol e show com vários artistas. Romário, Renato Gaúcho, Ronaldo Nazário e muitos outros famosos resolvem ajudar a iniciativa do "Cabeça".Em dias de hoje fica uma dúvida,com a invasão da favela e a implantação de uma UPP quem vai bancar a distribuição, visto que tanto o narcotráfico quanto o jogo do bicho ficarão enfraquecidos, ou segundo as autoridades desaparecerão? A resposta fica para daqui a algum tempo, quando tudo estiver resolvido. Enquanto isso milhares de pessoas esperam que a farta distribuição continue a ser feita, para confirmar uma tradição que vem desde o século passado.

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4 de ago de 2012

A VIA ÁPIA DA ROCINHA

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A VIA ÁPIA É O CENTRO COMERCIAL DA ROCINHA ONDE VENDE-SE DE TUDO PARA TODOS OS GOSTOS
A Via Appia na Roma Antiga era uma de suas principais estradas. Para os romanos era a Regina Viarum, a rainha das estradas. Na Rocinha o nome italiano foi dado por Pompeo Feltrin em homenagem à sua terra natal. A Via Ápia é o principal acesso, um ponto de encontros e também seu centro comercial com uma agência bancária do Bradesco situada no térreo de um edifício de oito andares, farmácias,ponto de moto-táxis, barracas de ambulantes vendendo produtos diversos, uma associação de moradores (AMABB), salão de beleza, três restaurantes, várias lanchonetes, loja de telefonia,e uma oficina de conserto de motocicletas.Em outros tempos, não muito distantes haviam também dois pontos de apostas no jogo do bicho, e alguns pontos de vendas das "mercadorias do prazer", conforme a conceituação do sociólogo Michel Misse. Tanto vendedores e suas mercadorias, quanto apontadores e apostadores conviviam em uma aparente harmonia, bem diversa da "Guerra de 1988" entre Sérgio Bolado e Luiz Carlos Batista, que deixou um rastro de muito sangue. No tempo em que Antônio Bonfim Lopes reinava na localidade, um restaurante servia também como ponto de encontro e de reuniões de "chefes" da rede criminal Amigos dos Amigos-ADA, para traçar estratégias para invasões armadas e da tomada de territórios em poder de seus concorrentes.  Em outros tempos não muito distantes a sexta feira fervilhava e havia até um pregão de sua mercadoria nessa exótica feira pós-moderna em que um  jovem apregoava a quem quisesse ouvir: "Vem cá meu bom, aqui tem o melhor pó da cidade, não é malhado e custa só cinco reais".
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 Nos dias de hoje, em tempos de UPP, eles não mais fazem parte da paisagem, levando seus postos de trabalho para as centenas de vielas e becos da favela. Na Via Ápia estão sendo substituídos por alguns policiais civis e militares que fazem a sua forma de pacificação, muito contestada pelos moradores depois do Caso Amarildo. Hoje já se fala em uma saída "honrosa" dos policiais militares e de uma convivência em paz e harmonia.

 
Photo Alcyr Cavalcanti all rights reserved



23 de jul de 2012

UM LUGAR CHAMADO VALÃO


VALÃO ERA O FEUDO DO BEM TE VI QUE RECEBIA ARTISTAS E POLITICOS EM PLENA MADRUGADA
APÓS ELEIÇÃO MORADORES ESPERAM PROMESSAS NÃO CUMPRIDAS
A URBANIZAÇÃO DO VALÃO  NÃO SAIU DO PAPEL
O Valão era o lugar predileto do Bem te vi que na alta madrugada recebia belas atrizes globais e políticos, alguns do alto escalão carioca. O tempo passa e promessas, muitas promessas e pouca ação. Na Rocinha existem mais de dezoito microáreas,uma delas fica logo na entrada, é a Rua do Canal, mais conhecida como Valão. uma das passagens para quem deseja ir para o interior da favela, através de seus inúmeros becos e vielas. Nessa área durante muito tempo estabeleceu-se um dos maiores pontos de venda de drogas a varejo do Rio de Janeiro. Esse foi durante muito tempo o principal argumento para servir como justificativa para o abandono da microárea pelas autoridades.

Foto Alcyr Cavalcanti ( cf lei dos direitos autorais)
Popularmente valão significa uma grande vala, onde na falta da coleta de lixo são jogados vários produtos descartados. Há algum tempo atrás significava um local onde as pessoas "desconsideradas", rebutalho social, o chamado lixo humano, eram jogados depois de executados por um tribunal sem clemência.
Atualmente o canal está cheio de lixo e restos dos mais variados, desde animais mortos, a sacos plásticos. O cheiro em pleno verão é insuportável,prejudicando um restaurante que fica logo na entrada, que faz um bife com fritas da melhor qualidade, preparado com todo carinho. Os moradores esperam as prometidas obras de urbanização do PAC, para poderem respirar aliviados. Acreditam que tudo será feito com honestidade, ao contrário das obras do "Valão de Ouro" , onde o dinheiro literalmente escoou pelo ralo, enchendo o bolso de alguns espertalhões.
O Valão é um lugar de muitas e muitas histórias, onde políticos de renome se reuniam com Erismar, o Bem-te-vi, na época o chefe do tráfico. Vinham pelo menos duas vezes por semana para alguns acertos. Apesar de seu prestígio, ou talvez tenha sido por esse motivo, que Erismar o Bem-te-vi tenha sido executado em uma sombria madrugada de 29 de outubro de 2005.Foi uma verdadeira caçada, batizada de "Operação Cavalo de Tróia", porque segundo a versão oficial , a policia teria infiltrado dez homens que alugaram uma casa na rua do Valão, próximo a uma de suas inúmeras residências.Os policiais estariam (segundo a versão oficial) disfarçados em operários da construção civil. Ao que parece, o que aconteceu de fato, foi uma traição, por pessoas de sua inteira confiança. Mas sua morte não ficaria impune, seus fiéis sabiam da "trairagem" e poucos dias depois oito homens foram julgados e executados depois de muito sofrimento. Segundo conversa que tive com moradores que pediram para não ser identificados, temendo possíveis represálias, eles tiveram as cabeças cortadas ainda em vida.


foto Alcyr Cavalcanti all rights reserved 

No final da microárea durante muito tempo,foram prestadas homenagens à sua inesquecível lider comunitária Maria Helena Pereira da Silva, assassinada em seu apartamento na Estrada da Gávea 521 na Curva do S em novembro de 1987.


foto Alcyr Cavalcanti all rights reserved
As crianças esperam as obras de urbanização prometidas, que ainda não saíram do papel.

20 de jul de 2012

SEQUESTRO NA ROCINHA

A Divisão Anti-Sequestro (DAS) investiga a possibilidade do comerciante Gonçalo Valdemar Evangelista de 55 anos, conhecido como Valdemar do Gás ter sido sequestrado. Valdemar foi expulso da Rocinha em setembro de 2004 por divergências com o chefe do narcotráfico. Um grupo de traficantes sob o comando de Soldado e Lelé invadiram o bar Pedra Bonita, onde havia um depósito e levaram noventa botijões, fax, documentos, chaves dos veículos, além de ameaçarem os cinco funcionários. Na época, quem também explorava a venda de gás era Fabio Lucas Conceição, conhecido como Gaúcho, ou Lucas do Gás. Lucas desapareceu misteriosamente, deve ter sido assassinado, mas seu corpo nunca foi encontrado. Depois de voltar à favela e retomar a venda de gás, Valdemar foi candidato a vice-presidente da União Pró Melhoramentos de Moradores da Rocinha (UPMMR) na chapa que tinha Luis Claudio Oliveira, o Claudinho da R1 como cabeça de chapa. Ambos foram eleitos, mas Claudinho deixou a associação por ter sido eleito vereador com apoio do senador Marcelo Crivella. Valdemar abandonou a política local, dedicando-se exclusivamwente a seus negócios. Ele residia na microárea chamada Vila Verde onde fez diversas benfeitorias. Valdemar era muito querido pelos moradores que estão apreensivos.
na foto Valdemar (esquerda) com Claudinho
Os criminosos que inicialmente pediram um milhão de reais para libertar o comerciante, já estavam aceitando negociar a sua liberdade por R$ 50 mil, em contato com policiais da especializada. Valdemar sequestrado ás onze da manhã,foi encontrado às onze horas da noite de ontem dia 20/07 no subúrbio de Paciência em uma área dominada por milicianos e levado para a sede da Divisão Anti Sequestro no Leblon. Ao delegado Claudio Góis titular da Divisão, Valdemar disse não ter sido torturado, nem ter sofrido nenhuma violência. Para um apontador de jogo-do-bicho que faz seu ponto em uma das centenas de travessas do Bairro Barcellos,pondo em dúvida o que de fato teria acontecido: "foi um sequestro quase relâmpago, onde os bandidos não levaram nenhuma vantagem".

15 de jul de 2012

A CRECHE DA RUA UM, VERDADEIRO OÁSIS NO MEIO DO TIROTEIO

foto de Alcyr Cavalcanti  all rights reserved
UM OÁSIS NO MEIO DO FOGO CRUZADO
"Há uma harmonia de tensões opostas, como do arco e da lira"
                                               Heráclito de Éfeso

A Creche da Rua Um é um verdadeiro oásis no meio da imensa favela e também uma prova da possível harmonia entre tensões opostas, convivência entre realidades muito distintas. O refúgio fica localizado em uma rua que é o coração e o cérebro da Rocinha. É também conhecida como a Creche da dona Eliza, dirigida desde há muito tempo por Maria Elizia Pirozzi, 71 anos, uma nordestina "arretada" que não aceita ordens de ninguém. Por causa de seu temperamento explosivo já foi obrigada a "emigrar de sua favela" mais de uma vez. Quem chega lá, depois de uma subida através da rua estreita e sinuosa percebe o quanto a velha paraibana é querida por todos, desde o mais humilde morador, aos eventuais "donos do morro". A creche fica em uma rua que é o centro nervoso da imensa favela, nos arredores de um pequeno núcleo cultural, a Casa da Cultura, um restaurante com apenas cinco mesas e uma comida saborosa, mas cujo maior atrativo são as máquinas caça-níqueis, um templo pentecostal, um salão de beleza, e um bunker onde os "donos do morro" fazem (ou faziam) suas reuniões e traçam (ou traçavam) suas estratégias. Em uma das inúmeras curvas funciona um concorrido ponto de jogo de bicho, às vezes permitido, às vezes reprimido ferozmente, conforme os humores dos policiais de plantão. Próximo à entrada funciona um posto de saúde municipal, teoricamente subvencionado pelo governo. Na parte mais alta da rua, está sendo construído um prédio que irá abrigar um batalhão policial, para segundo declarações oficiais "impor a paz em toda a comunidade".
Dona Eliza nunca se deixou abalar, nem mesmo se intimidar, nem quando foi "convidada a se retirar" para um exílio que parecia não ter fim. Já ministrou seus ensinamentos, seu modo de conviver e se manter com dignidade a milhares de crianças que foram criadas debaixo de sua saia. Muitos graças a seu esforço e perseverança passaram a acreditar que pelo conhecimento poderiam superar qualquer obstáculo ao longo da caminhada. Seu pensamento sempre foi um só:salvar as crianças, dar um rumo àqueles que ansiavam por uma palavra de carinho e de um bom prato de macarrão com aquele molho especial, que só ela sabe preparar, mesmo em meio a tiroteios, matanças, extorsões, invasões, tanto da parte dos inimigos quanto dos pretensos aliados.

Jorge Mamão e Dona Eliza foto Alcyr Cavalcanti all rights reserved
"Dou minha vida por esse povo, que você vê jogado por aí, abandonado pelos governantes. Luto há mais de trinta anos para esse povo estudar. Várias crianças que passaram aqui pela minha creche hoje são professores, militares, advogados e até juízes.Tenho muito orgulho disso. Vivo pedindo doações de tudo, às vezes aceito até migalhas, mas fico feliz. Eu sei que eles também ficarão. Meu sonho é botar uma rádio, que vai se chamar Rádio Rolinha, porque o passarinho vive catando as migalhas dos outros, mas sempre feliz. Eu de certa forma sou um passarinho acostumada a tudo,mas sempre lutando".


Maria Elizia Pirozzi a Dona Eliza fotos Alcyr Cavalcanti all rights reserved
Dona Eliza faz tudo o que pode pelos seus netinhos, como ela chama carinhosamente centenas de crianças que tiveram sua proteção, mas não fica sozinha em sua luta. Um grupo de abnegadas mulheres sob a orientação de sua filha Adriana, uma bela jovem que fez seus estudos na Pontifícia Universidade Católica (PUC) na Gávea. Adriana é uma batalhadora de temperamento forte, herança de sua mãe, mas que decidiu deixar a política local, para viver exclusivamente para as crianças da creche. Há alguns anos atrás foi candidata à presidência da principal associação de moradores a União Pró Melhoramentos dos Moradores da Rocinha (UPMMR). Era franca favorita, mas por motivos dos mais diversos perdeu a eleição, e disse que nunca mais quer ouvir falar em ser candidata, embora o sobe e desce à sua procura continue, principalmente em vésperas de eleição.


Adriana Pirozzi foto Alcyr Cavalcanti all rights reserved







obras do pac

obras do pac
inicio de obras ao lado do ciep ayrton senna